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A série Adolescência é arrebatadora e escancara um tema que tem permeado nossas conversas como pais, educadores e profissionais da saúde: a fragilidade emocional dos adolescentes.



A trama acompanha a história de um jovem de 13 anos acusado de assassinar uma colega da mesma idade. Entre as inquietações que emergem, a série traz à tona um fenômeno pouco discutido no Brasil: o movimento incel.



O termo incel (involuntary celibate, ou celibatário involuntário) ganhou notoriedade nos últimos anos, especialmente com o crescimento de comunidades online. Esses grupos, majoritariamente masculinos, compartilham a crença de que são incapazes de estabelecer

relações amorosas e sexuais, atribuindo essa dificuldade a fatores externos, como padrões de beleza, estrutura social e a seletividade feminina.



Ao discutir esse fenômeno, muitas vezes responsabilizamos a masculinidade tóxica ou o uso excessivo de telas. Embora esses aspectos sejam relevantes, limitar a análise a eles pode ser uma abordagem reducionista. O verdadeiro desafio é refletirmos sobre onde

queremos chegar enquanto sociedade.



Stephen Graham, ator, roteirista e produtor executivo da série, disse em uma entrevista: "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança."



Vivemos tempos de pais preocupados e bem-intencionados, mas talvez seja preciso revisitar nossa compreensão de educação e felicidade. Em algum momento, acreditamos que o excesso de informação e proteção garantiria a segurança de nossos filhos. No entanto, o cuidado baseado na ideia de evitar qualquer sofrimento pode acabar limitando o aprendizado.



A dor, apesar de indesejada, ensina. Sem vivenciar desafios e frustrações, jovens crescem despreparados para lidar com a realidade e projetam suas dificuldades no mundo externo.



Sim, adversidades na infância podem gerar traumas e afetar a autoestima. Mas é a postura do adulto modelo que desempenha um papel fundamental na construção da resiliência.



Nunca fomos tão competentes e, ao mesmo tempo, tão presos em padrões e controles.



Vivemos uma contradição: na era da conectividade, somos mais solitários do que nunca. A tecnologia, que poderia aproximar, intensificou o fenômeno da comparação e validação externa. Hoje, a métrica da satisfação não está mais dentro de cada indivíduo, mas sim na tela do celular, na casa do vizinho, na aprovação dos outros.



Crianças e adolescentes crescem com acesso irrestrito a informações que ultrapassam sua capacidade de compreensão e processamento. Como pais, oscilamos entre superproteção e concessão irrestrita. Criamos um ambiente de cuidado e proteção, mas, nesse processo, fragilizamos nossos filhos.



Nossa sociedade, obcecada pelo desempenho e pela imagem, tem criado indivíduos que não sabem lidar com a rejeição e o fracasso. Um terreno fértil para o desenvolvimento de mentalidades incel.


O orgulho de muitos pais, hoje, está mais ligado ao que podem proporcionar materialmente aos filhos do que ao mérito genuíno deles. As redes sociais aceleram a necessidade de se encaixar em padrões, reforçando um ciclo de controle e aceitação externa.



Vivemos o paradoxo de uma sociedade individualista e, ao mesmo tempo, hiperconectada. No desejo de proteger, levamos a superproteção ao extremo e criamos indivíduos com dificuldades significativas para lidar com frustrações ? o que os leva a projetar suas dores no outro.



Talvez seja o momento de repensarmos não apenas o que queremos ensinar às novas gerações, mas como queremos que elas vivam e se relacionem consigo mesmas e com o mundo.



E, para isso, precisamos nos reconectar a nós mesmos ? nossos desejos, nossa essência, nossas opiniões. O primeiro ser de quem devemos buscar aceitação é a própria pessoa que vemos no espelho.



Só assim ensinaremos nossas crianças a se amarem.